Em defesa do pessimismo.
O pessimismo é algo bom. Com freqüência, vejo afirmações contrárias, mas talvez estejam dando atenção apenas à superfície de algo com significado amplo.
Ser pessimista não é sentar e esperar que as coisas dêem errado, mas sim, imaginar que as coisas sempre vão dar errado ainda que algo seja feito a respeito – e, inevitavelmente, procurar soluções ou alternativas para as questões que podemos prever, mas sempre com a consciência de que não é possível se precaver contra tudo, ao invés de pregar o oposto.
O pessimista é, portanto, imaginativo, e compreende que a vida humana é uma eterna luta contra coisas ruins que não podem ser completamente evitadas. Não tenta se enganar acreditando que se trata de passagem por uma terra mágica habitada por pôneis cor-de-rosa e ninfas do lago que resolvem problemas.
Parece amargo? Talvez seja, mas o pessimista não é infeliz por natureza, é apenas cético. Ele não deixa tudo nas mãos do destino, e sabe que a melhor maneira de evitar o pior é esperando que ele aconteça. Os cintos de segurança, as leis, os cadeados, são todas invenções pessimistas. Como a prevenção seria possível se todos acreditassem que tudo vai dar certo, é só acreditar?
Afinal, se tudo vai dar certo, se não há razão para nos preocuparmos. Se as pessoas são boas e puras, para que nos esforçarmos ou tentar prevenir qualquer coisa? Deixe sua casa destrancada, vá passear sozinho pelas ruas desertas de São Paulo durante a madrugada, tenha uma vida de sexo, drogas e rock’n'roll, porque está tudo nas mãos de Deus e pronto.
Lembro-me de ter lido em algum lugar sobre o consenso na biologia de que os seres humanos só chegaram onde chegaram graças ao medo da morte. O medo nos protege, nos motiva, nos ajuda a fazer a escolha certa – pode não ser sinônimo de pessimismo, mas estão ligados.
Se você não estudar, não vai acontecer nenhum milagre que te fará passar naquele concurso. Se encher a cara e dirigir, provavelmente vai morrer ou matar alguém. Se não comer bem, terá problemas de saúde. Se decidir se casar, considere a hipótese de que um dia o amor poderá, sim, acabar. Tenha em mente que por mais que você deseje e trabalhe para que dê certo, provavelmente não será eterno.
Por mais triste que seja, não temos um manto protetor anti-desgraças à nossa volta. Claro que tudo que vem em excesso causa dano, e sem a curiosidade e o otimismo, é provável que já tivéssemos sido extintos também. Mas o meu ponto é: por que virou senso-comum demonizar o pessimismo? É um aliado, não um inimigo. Trata-se apenas de usá-lo na medida certa.
Não sei se gosto ou não deste post… Revisei várias vezes, e ainda não estou feliz, mas acho que nunca vai acontecer. Ele foi escrito há muito tempo, e já tinha sido até publicado aqui (por engano), mas como não tive coragem para deletá-lo até agora, é melhor postar de uma vez, mesmo sem estar satisfeita com ele…
EDIT: é, não gostei. Mas é a vida.



