e is dead and gone, lady, he's dead and gone; At his head a grass-green turf, at his heels a stone. White his shroud as the mountain snow. Larded all with sweet flowers; which bewept to the grave did not go with true-love showers.

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27 Jan 2010 ás 05:25 Besteiras, Livros

Tem uma coisa que anda me deixando… Perplexa.

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria“.

O uso que fazem da frase acima, tirada do Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Parece que só vejo pessoas (que querem ou não ter filhos) usando essa frase com o seguinte sentido: frase de impacto, sábia e genial, dita pelo sábio gênio Machado de Assis, que não teve filhos.  Leiam, releiam, reflitam.

Mas o sentido que eu vejo nesta frase é o seguinte: Brás Cubas, medíocre, arrogante, mimado, sempre dá desculpas para tudo o que faz, e esta é só mais uma de suas desculpas furadas, disfarçada de reflexão pessimista e brilhante.

Brás cubas nunca construiu nada relevante. Quando começa a escrever suas “Memórias”, ele as compara ao Pentateuco, o que faz com que ele pareça um tanto patético. Quase ninguém aparece em seu enterro, e ele culpa a chuva e a falta de divulgação. Abandona um possível relacionamento dando a desculpa de que a mulher é coxa e pobre. Tenta criar um “emplasto” só para ficar famoso.
E termina seu relato com o seguinte: “Ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.“.

Sou só eu que vejo essa passagem como sendo totalmente sarcástica? Não é uma frase sábia, depressiva, reflexiva, revolucionária. Ela é só… Sarcástica. Não foi Machado de Assis, o gênio autor, quem criou essas palavras. Foi seu personagem Brás Cubas, o defunto autor, o medíocre, que sempre tenta justificar seus fracassos – o que quer soar culto, talvez até como um gênio incompreendido, quando obviamente, não o é. Por isso a frase é brilhante, pelo humor que implica.

Machado de Assis a colocou ao final do livro para completar o retrato da personalidade de Brás Cubas, como se fosse “a gota que faz o copo transbordar”, ou a última pincelada em um quadro. Ele a colocou lá para que os leitores dessem um sorrisinho sádico ao lê-la. É o humor negro que todo fã de Machado de Assis venera… Mas muitos parecem confundir o autor com o personagem, o que é bem estranho.

A frase pode perder todo o sarcasmo, se você tirá-la do contexto. Mas, será que dá para tirá-la do contexto tão facilmente? A frase e o livro de onde ela saiu estão tão fortemente conectados, que, ao ler um, já lembramos do outro.
Por isso, me incomodo quando leio em algum lugar (especialmente em perfis de Orkut, mas não só) que “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria“, e mais nada. Nenhuma explicação, nada, só a “frase de impacto”. Me pergunto, “o que essa pessoa está tentando passar com isso, exatamente?

Bem, é isso o que penso. Estou errada? Estou certa? Preciso arranjar uma vida?














10 Comentários em “Sobre o legado de Brás Cubas.”


Mary Killer | 27-01-2010 - 18:53

Cara … detesto frases de impacto copiadas de escritores. Eu não quero generalizar, porque muitas pessoas realmente compreendem o sentido do que estão ctrl+c”ando” em seus perfis e se encaixam naquilo. Mas é irritante o número crescente de pessoas colando frases do Nietzsche (para dar um exemplo atual), sem de fato entender que porra é aquilo que ele tá falando e se realmente tem haver consigo … bem … é só uma frase de “impacto” pra impressionar os amiguinhos e o papai e a mamãe.
Quanto ao porque das pessoas confundirem o personagem com o autor, acho que é pelo estilo literário do próprio Machado. Quando eu leio Dom Casmurro, às vezes dá a sensação de quem tem alguém falando comigo (não sou esquizofrênica) … como se o personagem tivesse conversando comigo, sabe? E isso é próprio dele (que é meio romancista) … aí, às vezes parece que é o Machado mesmo. Bem, eu vejo assim rsss
Beijoss e você já tem uma vida!! E está certa!

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Mariana Reply:

haha…
eu não detesto, só fico confusa às vezes.

essa semana eu estava discutindo numa boa esse assunto em uma das comunidade de que eu participo, a criadora do tópico do nada veio com cinco pedras na mão pra cima de mim .-.
aí vou no perfil dela, tá lá, “EU DISCORDO DO QUE VOCÊ DIZ,
MAS DEFENDEREI ATÉ A MORTE O SEU DIREITO DE DIZÊ-LO.”
eu quoto a frase e respondo que ela tem um jeito estranho de demonstrar, ela me chama de burra, e diz que eu posso ler o quanto quiser mas nunca vou entender o significado e tinha mais é que ficar quieta.

e aí… rs

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Mary Killer | 27-01-2010 - 18:54

Ah é! Como estou de férias, ou seja, oficialmente vagabundeando, eu criei um blog http://maryconsultora.blogspot.com pras minhas vendas de Natura eheheh não tem layout decente porque desisti do blogspot, mas até que tá bonitinho. Bjs

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Tati | 28-01-2010 - 14:58

Tem coisa pior do que extrair uma frase de um livro e colocar no perfil do orkut. É dar um google do tipo “frase de efeito + nome de um autor” e colar no rodapé do email, depois da sua assinatura. QUERO MORRER.
Já vi gente que a única coisa que lê com mais de cem páginas é a edição especial de Caras colocando GOETHE no rodapé do email. Foi uma garota lá da faculdade… Surgiu assunto sobre literatura e eu comentei sobre Goethe e o que eu conhecia da obra dele. A jumenta comenta: “ai não gosto desse tipo de coisa”. WHAAAAAAAAT THA HELL? E eu, no meu doce estado de crueldade latente, rebati: “sério? Então por que você usa uma frase dele na sua assinatura?”. Pense em uma pessoa sem graça. Mas aí né, a belezinha tem que contornar a situação, pra não se passar por babaca. Ficou dizendo que ninguém reparava naquilo, que ela nem lembrava, estava lá há milhõõões de anos… a-ham. ¬¬

Você está certíssima. Eu adoro quando escrevem sobre essas “pequenas coisas”, que normalmente ninguém repara, ou repara, mas nunca expressa esse incômodo. É tenso. Preciso fazer isso de vez em quando também. xD

Beijo!

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Mariana Reply:

bem, aí não dá pra entender, mesmo.
acho que existem pessoas e pessoas que quotam frases, mas desse tipo que vc mencionou, é só pra ganhar confete ocasional, acho.

alguém vai lá e diz, ‘poxa, concordo muito com essa frase aí’ e a pessoa, ‘é, tp, mó profundo :o’.
pra isso, tbm não tenho paciência…

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Aline | 28-01-2010 - 23:14

Nunca tinha pensado sobre essa frase dessa forma. Eu a achava, primeiramente, impactante mesmo. Já cheguei a achá-la pessimista e um tanto real, mas nunca a contextualizei muito. Mas agora, depois que vc falou e eu pensei, me parece que ela é sarcástica, de um modo que critica a personagem. Como se “nossa” miséria, se resumisse à “minha” miséria, que era a miséria de caráter do Brás. Então, se pensar como vc disse, que seria uma desculpa, acho que se encaixa bem, já que como a vida dele foi uma “miséria”, ele generaliza, para se justificar.
Muito boa sua reflexao, Mari!

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Mariana Reply:

que bom que gostou.
acho bem possível que Machado de Assis acreditasse mesmo nessas palavras, mas por essa passagem, não vejo com osendo algo explícito… =/

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Anna | 29-01-2010 - 00:23

Muito bom o post, Mari! Minha visão do Brás Cubas é bem assim. As coisas não deram certo pra ele, a vida não deu certo. Viveu sozinho, assim morreu. As coisas passaram por ele e não ficaram, e o tempo todo ele justifica e tenta se passar por superior. Ele não se vangloria de quem ele é, ele apenas quer que os outros o vejam assim. No fundo, ele se auto-ironiza, pois é prepotente demais para dar-se por vencido pelas fatalidades mundanas.
beijos

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Mariana Reply:

não tinha pensado antes em auto-ironia, mas concordo com vc, anna ^^

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Claudinha | 29-01-2010 - 15:36

Ainda não “Memórias Póstumas…” mas tenho o livro aqui, e óbvio que está na minha lista. Gosto muito de Machado de Assis.

Sobre a frase…acho que você tá procurando cabelo em ovo, Mari! hauhahua
Bjos

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