02 2009
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Gado.

Por admin às 23:01

A humanidade não é superior a nada: admiro o talento dos outros para criar, dominar, progredir. Outros. Me deixa triste ver que essa sociedade em que vivemos foi construída por muito poucos, mas quando nos referimos a “humanos”, a conquista desses poucos se torna patrimônio da espécie inteira; só que a maioria não merece isso. A maioria de nós não merece nada, não merece o ar que respira.
Não entendo o porquê… A maioria das pessoas não passa de gado, e acredito que posso ser incluída nisso.

Exceções à parte, nossa espécie nasce na mediocridade, vive na mediocridade e morre na mediocridade. Não fazemos nada de especialmente útil ou importante. Quando crianças, temos sonhos de grandeza; quando adultos, ainda sonhamos… Quase ninguém chega lá. O número de vencedores é tão insignificante – mas tão poderoso, que ofusca todos  os  bilhões de perdedores e origina a esperança.
Sobre os perdedores: somos facilmente manipuláveis, vamos para os mesmos lugares, pensamos as mesmas coisas, fazemos as mesmas coisas, reagimos da mesma maneira. E também… Aqueles que tentam sair disso, ainda que apenas um pouco, são tratados de modo cruel. Como pode?

Já vi estudiosos renomados, hoje, reclamando do individualismo, como se fosse a coisa mais terrível da nossa geração. Mas será mesmo? Será que é ruim deixar de pensar como grupo para pensar como um só?
Não podemos nem nos vestir do jeito que quisermos sem ter que agüentar imbecis nos provocando ou mesmo nos agredindo por não estarmos no padrão (já foi diferente?). Você acha que alguém tem o direito de jogar tinta em um desconhecido por ele não se vestir igual a todo mundo? E matar? Sophie Lancaster foi morta simplesmente porque alguns não gostaram do modo como ela era. Seu namorado também sofreu.
Individualismo? Onde? Se não podemos nem ser nós mesmos em segurança, como podemos ser egoístas ao não pensar nos outros? Já não é o bastante estarmos abaixo dos vencedores, sermos parte da boiada, ainda temos que nos preocupar com o sofrimento de pessoas invisíveis? Isso é mesmo egoísmo?

Mesmo ter gostos diferentes do padrão é malvisto; uma música diferente, idéias diferentes. O individualismo ainda é privilégio de poucos; estou certa de que progredimos, mas a verdade é que o restante do gado não quer que haja diferença entre as cabeças. Quer que todos sejam iguais, ou então, vão para o matadouro.

As coisas mais básicas se tornam imperdoáveis. Não se trata apenas de música, roupas, estilo. Uma pessoa não pode amar outra do mesmo sexo. Uma mulher não pode não querer se casar. Não se pode ser de uma religião diferente. Todos devem ter filhos. Todos devem gostar das mesmas coisas, ter os mesmos sonhos, e se mover para o mesmo lugar; e quanto aos que não seguem essas regras, não há problema em isolá-los ou feri-los. Quem é diferente não tem sentimentos… A não ser que seja um vencedor, pois eles são intocáveis.

Quantos já leram Brás Cubas? Eu odiei esse livro. Odiei porque ele mostra a vida das pessoas como ela é. Ali está um homem que não vive grandes aventuras. Ele tem desejos e objetivos comuns, não é nada especial. É um ninguém, e morre sendo um ninguém. Brás Cubas é a humanidade inteira: medíocre, acredita que é valioso. A verdade é que passamos pela vida como sombras, enquanto um ou outro revolucionário dita o que deve ser feito, quando, e como. Sendo perdedores, seguimos as ordens; porque esta é a lei, e não há como escapar. Uma única pessoa é capaz de controlar milhões, e aos controlados só resta viver o que foi estabelecido.

Este é o destino que nos aguarda: morreremos definitivamente. Alguns poucos, talentosos em seja lá o que for, serão importantes. Serão o que quiserem e ainda assim, o rebanho os amará. Estes mudarão o mundo, continuarão a construir nossa sociedade para o bem ou para o mal. Mas sei que eu e o resto do rebanho não teremos nenhuma relevância nisso. Não é uma questão de querer ou não; não se trata só de esforço, mas também de talento, sorte, genialidade. Somos o gado. Percorremos um caminho previamente estabelecido por outros, sentimos, sonhamos, nos admiramos, atacamos o que é diferente e sofremos… E não temos rostos. A expressão “as massas” é realmente ótima: todos juntos, formamos um só. Mas como indivíduos, somos menos que pedaços: não temos -e nem devemos ter- relevância.

Sinto falta da rotina tediosa. Bandas – Switchblade Symphony

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